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domingo, 3 de julho de 2011

Saideira

Após comer todo alho do mundo, encontro-me desesperado por um chiclete. Paro em um quiosque ao ver a prateleira de chicletes, porém sem chicletes.
- Acabaram-se os chicletes? - pergunto utilizando a norma culta do português para não ferir nenhum tipo de suscetibilidades.
- Não, responde o gajo e retorna aos seus afazeres, deixando claro que aquela conversação já estava finalizada.
Vendo que eu não saía, pergunta-me.
- Queres algo, pá?
- Um chiclete.
- Não tem.
Diante da minha perplexidade, continua:
- Ah, eles não acabaram. Eu cá não tenho já tem muito tempo.
Ê pá!!! O que significa em português do Brasil "tá tirando uma com minha cara, folião?". Essa parte eu só pensei. Agradeci, com um sorriso irônico, e me fui.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Fica sempre um pouco de perfume

O perfume

Na ida para Madrid não sei por que motivo a segurança do aeroporto de Lisboa estava reforçada e eles estavam verificando com rigor a presença de líquidos na bagagem de mão. Por míseros 25ml, disseram-me que meu perfume não iria embarcar. Argumentei que o frasco não estava cheio e que, de líquido efetivo havia muito menos que 100ml. Em vão. Cheguei a pensar em novas linhas de argumentação, dizer que aquele perfume não representava uma ameaça à paz na Europa, que havia muito sentimento ali, que grandes momentos de minha vida pregressa tinham tido, ao fundo, aquele cheiro, e começar a chorar copiosamente, mas o português e toda a fila de portugueses atrás de mim fizeram-me admitir que este não era o caminho.

Desconhecedor que era dos frascos de perfume que tinham algum pedigree, fui atrás da segunda alternativa: obter um frasco de 100ml e despejar o precioso líquido nele e embarcar rumo a Madrid. Não encontrava e mais uma vez senti falta do empreendedorismo de necessidade vigente no Brasil. Certamente eu não seria o primeiro a passar por este tipo de situação. Encontrei em uma farmácia, naquele preço de aeroporto (por que a eles não se aplica o mandamento divino do "não roubarás"?). Comprei e lá fui fazer a transferência. E rosqueia daqui, rosqueia de lá, e nada. Uso a força. Nada. Óbvio, se você fosse o fabricante de um perfume, para que você iria facilitar a vida daqueles que quisessem colocar outros líquidos em seu frasco? Para incentivar a falsificação? Desprovido de ferramentas adequadas e de tempo, eu jamais abriria aquele frasco. Juro, mas nego, que passou pela minha cabeça borrifar 70ml de perfume no recipiente dentro das normas internacionais recém adquirido. Com um cálculo rápido, vi que levaria 8! (exponencial) horas.

Perdi, pensei. Vou doar para alguém, mas não posso facilitar. Fui ao banheiro e posicionei o perfume em baixo da privada, na maneira mais escondida possível. Na volta, se alguém tiver encontrado, provavelmente será um trabalhador da limpeza ou algum paranóico que tem certeza que há bombas embaixo de todas privadas. Neste caso, meu perfume seria detonado. Se ninguém encontrar, passo na volta e pego.

Fui a Madrid, conformado. Rasgar dinheiro estava sendo minha especialidade até então. Detalhe: esqueci de passar na volta e verificar, pois saí correndo para conseguir ver o segundo tempo do jogo do Real Madrid, na liga dos campeões. Este dia era uma Terça-feira.

Na sexta, fui ao aeroporto para ir para Zurique. Apenas para me certificar, fui ao banheiro onde havia deixado o perfume. Sinto um cheiro agradável, diferente. Não é possível, será? Inacreditavelmente, estava lá. Usei minha grande bagagem da língua espanhol, quando me apercebi que não poderia levá-ló a Zurique, pelo mesmo motivo que ele não foi a Madrid: la puta madre!

A esperança de ser uma pessoa cheirosa novamente estava de volta. Será que tento embarcar? Ou arrisco deixar mais um fim de semana? Mudo de cabine? Mudo de banheiro? A probabilidade de alguém encontrar é cada vez maior quanto mais o tempo passa. Lembrei-me de aí quando jogo baralho, caxeta (pif-paf), sempre que mudava a carta do bate, eu perdia. Lembrei-me também do contrário, de todas as vezes que não mudei o jogo e a carta que seria a da batida se eu tivesse mudado o jogo aparece no monte na rodada seguinte. Resolvi não mudar o jogo e deixei exatamente onde estava.

Segunda-feira, lá vou eu ao banheiro, olho no lugar do perfume e a única coisa que encontro é um bilhete: "Foi um prazer servi-lo, meu querido. Aquele abraço, Murphy".

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Futebol

Hoje foi a segunda partida de futebol que jogamos com os portugueses. Na primeira oportunidade, eram três times, a turma portuguesa, do mesmo curso que a gente, da manhã e da tarde, e a nossa equipe, formada pela arqueiro, guarda-metas, guarda-redes, goleiro, mexicano Emílio Raul, que de pronto se dispôs a jogar no gol, livrando-nos desta árdua tarefa; Marcos, brasileiro, mineiro morador de Brasília; Edson, peruano, mais conhecido como grande guerreiro inca, representante da garra sul-americana e portador de um carrinho que felizmente, para os portugueses, ele utiliza com moderação, embora tenha aberto a caixa de pandora no final do jogo e, por sorte, estava no final; Francisco, brasileiro, carioca, pivô  artilheiro; Daniel, equatoriano "sí se puede", lateral direito, esquerdo, meio-campista e atacante; e eu, versão paz e amor.

No primeiro jogo, contamos no final com a contribuição de Jesus, também peruano, e Óskar, moçambicano. Ambos têm problemas com horário e devem estar indo agora (uma da manhã) para a pelada das 19h. Eram três times neste dia, jogamos três partidas de dez minutos, perdendo uma e empatando duas, sendo que as partidas que empatamos saímos ganhando de 3x0 e cedemos o empate.

Na torcida, contamos com o apoio de Rossana, Cláudia - presentes nos dois jogos e puderam, desta forma, apreciar a evolução do futebol - e Kelly, Miriam e Alejandra, para o segundo jogo.

Um resumo da partida foi melhor feito pelo nosso arqueiro, Raul, em e-mail encaminhado no dia seguinte, a qual tomo liberdade de publicar neste espaço, versão original.

"Felicidades 5CADAPI!!!!, por haber hecho un juego de futebol divertido y limpio, pero sobre todo entusiasta contra el equipo de Portugal del INA, fue muy emocionante siempre el espíritu combativo del guerrero Inca, a pesar de que Edson estaba lesionado siempre mantuvo el paso firme para anotar varios goles.

Por otro lado Rogerio, no se dejó amedrentar por el equipo contario y se desempeñó bien tanto a la ofensiva como en la defensiva, quien con varios pases de Francisco anoto un par de goles, es importante decir que Francisco siempre fue un pilar a la ofensiva, nadie lo podía moverlo de su lugar!!!! Y siempre mantuvo una posición siempre estable no salía de sus 2 mts cuadrados de cancha, pero eso si como un buen comandante veía al frente y dotaba de extraordinarios pases.

El teniente coronel Marco, subía y bajaba como un chamaco de 15 años, que bueno que no toma cerveza!!! pues con las coca-colas se ve que tiene mucha energía, pues siempre lo vi correr y jugar como el mismísimo Ronaldo, que digo, como Pelé.

Claro que la batalla fue intensa, Edson lesionado pero nunca caído y junto a Daniel quien agotado,  pero eso sí, siempre caballeroso!! Pues llevó a a las chicas, Rossana y Claudia por las bebidas espirituosas mientras nosotros jugábamos con un elemento menos, y total ni bebidas trajeron.

Cuando todo parecía perdido, llegaron como de la nada, Oskar y Jesús muy agitados, ellos dijeron que venían corriendo ¿???, Pero bueno llegaron a relevar al caballeroso Daniel y al Lesionado guerrero Inca: Edson; así entró Jesús y en su primer balón se acalambró la pierna derecha, pero insistió y siguió corriendo entonces tocó su segundo balón, fue entonces cuando se le acalambró la pierna izquierda; que bueno que tiene cuatro piernas pues no le importó y  siguió jugando como chamaco de 20 años.

Los portugueses no sabían que habíamos importado a un jugador estrella desde Mozambique, Oskar con cara de inocente les pegó dos que tres patadas a las espinillas a los portugueses, pues no estaba dispuesto a dejarse intimidar.

Lo que más se resalta en esta crónica es la labor de la porra, pues solo eran solo Claudia (sin cena y con hambre) y Rossana que eran las únicas que gritaban y apoyaban al 5°CADAPI , pero ellas, sí solo ellas opacaban a las 7 u 8 portuguesas que apoyaban al equipo contrario; a Rossana le salía un apoyo desde muy adentro algo así como un Ultrasonidoa!!!!!, y decía …. arriba piri-piri!!! Y las portuguesas ojicuadradas solo callaban y murmuraban: moito bom, moito bom!!! el apoyo Salvadoreño-ecuatoriano fue implacable con el espíritu de las porristas portuguesas.

Ah, se me olvidaba también hubo portero, jejeje"

O segundo jogo, realizado nesta quarta-feira, foi com apenas uma das turmas - duas equipes apenas, por uma hora de jogo. Combinamos no café e o convite para o jogo, feito por um dos jogadores portugueses, foi feito pelo e-mail que replico abaixo, sem identificar o autor, dado que não lhe pedi autorização. Este é o lirismo português, aludido por Chico Buarque em seu fado tropical.

"Companheiros,

Temos mais um desafio para superar. Desta vez o desafio vem do outro lado do mundo, e o jogo é o futebol 6.
No campo do costume ou num outro uns metros acima, seremos colocados à prova, mais uma vez.
Quando? Se houverem 6 bravos jogadores a dar o passo em frente, será já amanhã, às 20h30.
Confirmações por e-mail ou pessoalmente, até às 15h00 de amanhã.
Grande abraço a todos e desejos de boas aulas / férias / praia !!!!"

Conseguiram 6 bravos jogadores, não mais, não menos. Parêntese necessário: os portugueses são muito boa gente, nos receberam muito bem, jogaram limpo em todos os momentos e, a meu ver, só roubaram em um lateral em que eu vi que a bola bateu, mas ele disse que não. Nunca fui de brigar por lateral mesmo, então deixei cobrar.

Para esta partida, contamos com o reforço do André, filho mais velho do Marcos. O princípio foi arrasador, fizemos 5x0 em 15 minutos de jogo, com direito a cada um dos jogadores perder cada um pelo menos uma oportunidade clara de gol. Os portugueses equilibraram o jogo, mas mantivemos essa diferença por todo o jogo. Faltando 5 minutos de jogo, Marcos deu lugar ao seu filho mais novo, o pequeno Gabriel, de 12 anos, que foi para o ataque. O menino é marrento, queria ficar dando rolinho, driblar, um pouco fominha. Falou para jogar nele que ele resolve. Fez dois gols - um embaixo da linha que ele, ingrato, nem agradeceu o passe deste que vos escreve - e o segundo, um bonito gol, que ele tocou no canto direito do goleiro após receber um passe dentro da área. Por fim, ele trombou dentro da área com o zagueiro que tinha duas vezes o seu tamanho e, como este estava um pouco desequilibrado, levou a pior e caiu no gramado. Gabriel, em uma mostra de que também joga limpo, pediu desculpas e ajudou o zagueiro levantar-se. Logo em seguida, apito final. Nas nossas contas, ficou uns 10x5 ou mais. Na deles, 9x7. O resultado não é muito o que importa, o que vale é suar a camisa.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Ainda as placas

Agradeço as contribuições que recebi em relação à minha interpretação das placas portuguesas, mas o mistério continua e ainda mais complexo. Porque registrei outras placas, que não consegui teorizar. Por exemplo, a placa abaixo:

Ela coloca mais um risco e a pergunta que fica é o que estas pessoas estão fazendo ali embaixo, uma vez que a placa proíbe tudo  várias vezes.
E agora, estas são ainda mais intrigrantes e me levaram à conclusão de que Portugal é um país livre do daltonismo. Devem ter inventado a vacina, seria bom conversar e fazer um acordo. Será que todos conseguem identificar qual é a seta vermelha? Observei o lugar e subiam e desciam carros, então o vermelho não significa não poder circular naquele sentido. Suponho que seja: “fique esperto que pode ter gente vindo no outro sentido”. Ou desça com uma luz vermelha e suba com luz branca, ou seja, suba de frente e desça de marcha-a-ré. Não observei ninguém descendo de marcha-ré.



A placa abaixo me chamou ainda mais atenção, pois a única diferença de uma seta e outra é o tamanho. Pensei até que o pintor da placa esqueceu de fazer as setas iguais, o que é algo que sempre pode acontecer e nós ficamos tentando encontrar intenção onde não há. Aqui, utilizam muito a expressão “em grande”, o que significa que foi algo muito bom, fiz “em grande”. Deve ser suba “em grande”, mas desça com mais cautela.  Ou significa que ali prevalece a regra de que o maior tem preferência. Ou que a preferência é que suba, mas se mesmo assim quiser descer, é uma escolha sua. Não é proibido, mas se me perguntasse, diria que não. Acho que é o equivalente àquelas frases muito utilizadas: “para mim, não tem problema, se quiser ir, pode ir, não vou ficar irritado”,  o que significa basicamente que eu não quero que você vá, mas se acontecer alguma coisa, não me venha pedir ajuda. E a primeira frase depois que acontece alguma coisa é “Eu não te disse? Você não viu que a seta para baixo era pequena?”.


Esta última eu não entendi mesmo. As outras, as interpretações absurdas eram apenas recursos de linguagem para entretenimento, mas era possível deduzir algo. Esta eu vi (a foto não foi da que eu vi, mas eu vi) e não sabia como agir, achando que estava fazendo sempre algo errado. Será que as quatro linhas paralelas, que estão proibidas significam cadarço e aqui não se pode utilizar tênis com cadarço? Será que aqui não se pode tocar nenhum instrumento de corda? Olhei ao redor e realmente não vi ninguém tocando violão, violino ou qualquer outra coisa. Talvez ali apenas os instrumentos de sopro poderiam levantar alguns trocados demonstrando suas habilidades. Ou talvez as linhas paralelas abrandam as proibições. Nesta ótica, não é uma proibição do que as linhas paralelas representam, mas é um abrandamento das proibições. Se ver que é proibido estacionar, verifique bem, se não for atrapalhar ninguém, se você estiver com alguma necessidade urgente, aquela proibição não é tão proibida assim.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Uni-vos!

Dividi em três partes,  dado que ficou  grande.
Parte 1
Era sábado, ainda não tinha ido ao centro de Lisboa depois de praticamente duas semanas por aqui. O plano quando me deitei era acordar cedo e ficar andando pelo centro, conhecendo os monumentos históricos da cidade, sem muito rumo na vida. Como todo bom plano – flexível – logo no primeiro passo já foi alterado: não acordei cedo. Até pensei em desistir, mas como bom brasileiro (não desiste nunca), olhei os horários do comboio e parti para a estação.
Alguma coisa estranha no ar. O comboio estava marcado para 14:59h, cheguei à estação às 14:47h e já eram 15:05h e nada do comboio. A estação ficando cheia, para os padrões portugueses, e começo a observar uma certa insatisfação no ar. As pessoas daqui enlouqueceriam no Brasil – pensei. Eles não toleram 5 minutos de atraso. Olho para o cidadão ao meu lado e para demonstrar que já estou aculturado, reclamei, achei um absurdo e perguntei para ele o que estava acontecendo. Respondeu-me o óbvio, como sempre: está atrasado. Fiz uma cara de “ora, pois, que coisa triste” e voltei-me para mim.
O trem chegou, cheio, sem sequer um lugar para sentar. As velhinhas em pé, com moleques sentados, que fiquei encarando e olhando para a velhinha para ver se percebiam que deviam se levantar e dar lugar a ela. Sem sucesso. A insatisfação geral continuava. Em cada estação, eles manifestavam seu descontentamento e a cada entrada e saída era sempre uma pequena confusão. Sociologicamente, pensei no grande ditado: ser pobre é fácil, difícil é empobrecer. O trem cheio era o equivalente a empobrecer, todos demonstrando sua indignação com aquela anormalidade, uma vez que estavam acostumados com o comboio tranqüilo. Concluí que, depois que uma nação se acostuma com um determinado nível, baixá-lo é muito mais complicado.
Não descobri porque estava atrasado, mas descobri que haveria uma manifestação da geração “à rasca”, que descobri hoje na Folha de São Paulo a tradução para geração “em apuros”. Não dei muita moral, mas fui lá ver o que é. 
 
Parte 2
Chegando ao centro, dirigi-me à Praça do Comércio. Nem bem pisei os pés na praça, um senhor, falando baixinho, mostrando-me um pacote: “maconha, marijuana, coca da boa”. Assustei, agradeci a oferta e continuei andando. Andei mais uns 7 minutos e, novamente, um outro senhor me oferecendo substâncias ilícitas. Três pensamentos: “tô com cara de maconheiro”, “é pegadinha da polícia” e “o mundo não tem solução”, assim, ao ar livre, quatro da tarde, em uma das principais praças de Lisboa. O lugar é bem bonito, como podem ver abaixo, e tinha um artista de rua de qualidade, tocando um Rock’n Roll à beira do Rio Tejo. Sem rumo que estava, parei um pouco e escutei umas três músicas, vendo o Tejo e sentindo a tristeza que corre por aquelas águas, imaginando como que um cidadão em mil quatrocentos e picos (uma expressão local) teve a brilhante idéia de, em uma caravela, sair no rumo do nada porque imaginava que podia chegar às Índias e poder comprar canela e outras especiarias do lado de lá. Devia realmente ser muito triste comer o pastel de Belém (em Belém) e o pastel de nata (no resto de Portugal) sem canela. Quase gargalhei com esta brilhante conclusão, mas me contive para manter a aparência de sanidade mental e de pessoa culta e intelectual que aprecia a arte da rua à beira do Tejo. Esta imagem me cativou e queria que as pessoas assim me vissem.



Continuei a exploração pelo centro da cidade, parando em um museu que tinha ali do lado, sobre Design. Até registrei no twitter minha primeira impressão: o design dos seres humanos que estavam indo visitar o museu, diretamente saído dos Jetsons. Venci o preconceito e o medo de não ser aceito naquela tribo, uma vez que eu estava vestido como se estivesse indo para o treino de futebol do time da escola, e entrei. Fiquei pensando em como a gente senta nas cadeiras, deita nas camas e não pensa em como alguém parou e fez aquilo. E como fica gente pensando em várias formas de fazer uma cadeira diferente. Não tinha lá a minha cadeira predileta, aquela do bar, de ferro, que se fecha e tem sempre uma marca de alguma cerveja ou refrigerante. Aqui não deve ter porque só quem já utilizou uma destas cadeiras no frio sabe o quão inadequado elas são para este clima.
Saio do museu decidido a comer alguma coisa. No caminho, outra oferta de substâncias ilícitas. Definitivamente, o mundo estava perdido e eu tenho cara de drogado, mas a polícia não estava patrocinando. No máximo, uma omissão. Comi um wafle com chocolate em uma padaria tipicamente portuguesa, destas que vemos muitas no Brasil e poucas em Brasília. Wafle mais bonito que gostoso. Dei uma mordida e fiquei com vontade de somente olhar. Comer iria estragar a imagem que eu tinha do wafle. Comi, prefiro a verdade.
Saio em busca da manifestação, para entender o que ocorre e protestar um pouco, afinal, como dizia Raul Seixas, todo mundo tem que reclamar. Fui conhecendo os lugares, o Armazém do Chiado, um café chamado “A brasileira”, que tem uma estátua do Fernando Pessoa, e chego numa praça, onde vejo três ônibus da Polícia. A manifestação deve ser aqui e, pelo tanto de policial, tomara que seja pacífica. Descobri que ali seria o final da manifestação, mas como o número de pessoas superou – e muito – as expectativas, a maioria estava na Praça do Rossio, que era maior. Fiquei ali mesmo, buscando descobrir onde estavam vendendo a cerveja que as pessoas estavam tomando. Encontrei e sentei-me, observando o movimento. Estava ao meu lado um manifestante, que me explicou o que estava acontecendo, que havia sido convocada pelo Facebook, que tinham mais de 200 mil pessoas e que estavam protestando contra a atual situação de Portugal – desemprego e precariedade dos empregos e baixos salários. Perguntei se propunham algo, disse-me que não, estavam externalizando a insatisfação. Disse-me que no Brasil, um tempo atrás, um presidente havia confiscado todas as poupanças e, excluindo aqueles que se mataram, todos acharam normal.
Com a chuva, todos se dispersaram e entrei em um boteco que havia perto da praça – bar lotado e dono feliz com os protestos. Eu, feliz com a Sagres a 1 euro.

Parte 3
Esperei a chuva passar sem pressa. Estava confortável com o cotovelo no balcão, observando a gente que passava e tentando aprender alguma coisa do português que falavam, tentando associar o nome às comidas que serviam. A chuva passou, saí em direção à Praça do Rossio, para ver se havia sobrado gente da manifestação por lá.
Sempre sobram alguns malucos e desta vez não foi diferente. Havia umas 10 pessoas, com grande diversidade, em torno de uma dessas Vans que no Brasil são carrinhos de cachorro quente, com garrafões de vinho e um som que não se podia ouvir direito. Malucos de todos os jeitos, hippies dos anos 60, Bobs Marleys, moradores de rua, todos celebrando o poder do povo. Fiquei ali, observando o movimento com cara de cachorro que caiu da mudança, sem fazer nada.
Puxo conversa com um cidadão conhecedor dos seus direitos sobre a qualidade do vinho que bebiam e como seria possível ter acesso à iguaria. Disse-me que estava acabando, mas ofereceu um gole de seu copo, pois o frio e a garoa estavam castigando um pouco. Vi que o movimento já estava acabando, já era por volta de 20h, e percebi que as coisas em Lisboa têm fim, diferente de mim. Desligaram o som, uma vez que sem vinho, não faz muito sentido continuar aquele protesto e começaram a dispersar. “Vou jantar”, pensei, e já estava saindo quando escuto uma voz cantando,  junto com o som que saía de um celular: “Antes, aqueles morros não tinham nome”, samba de Bezerra da Silva, muito conhecido meu. Virei-me e vi um cidadão muito parecido com o Varejão, jogador de basquete, mas bem mais baixo, e respondi: “foi pra lá o elemento homem”. E em uníssono “fazendo barraco batuque e peguinha, nasceu são pedro são carlos e cachoeirinha”.
Comoção geral entre os seis malucos – eu incluído – que ali restavam. Todos cantando, em torno de um  celular que quase não se ouvia, em círculo, o samba de Bezerra, na garoa. A este samba seguiram-se outros mais, quase todos do celular, e mais alguns raps e funks não pornográficos. As pessoas, em sua maioria, eram portugueses. O mais figura, no entanto, era – adivinhem? Mineiro. Destacava-se entre os loucos. Dissertou-me sobre o universo e sobre a transcendência mundial dos valores da paz. Explicou-me sobre a psicologia humana e sobre a crise econômica mundial provocada pelos subprimes. Clarificou-me conceitos relacionados a toda a interligação da humanidade e a teoria do caos e como a física quântica influenciava nos processos. Isso tudo, em uma única frase. A única coisa que entendi foi que tinha um irmão que morava ali em Portugal também, que era punk e que iria me apresentar. E que isso era uma honra, um sinal de deferência à minha pessoa, pois não era a qualquer que ele dava a confiança de conhecer o irmão. E mais que isso, o irmão punk não era de muitos amigos, mas as pessoas que eram apresentadas por ele, automaticamente eram aceitos pelo irmão.
Fomos em direção ao irmão e sua turma, que estavam ali perto. Estavam sentados na calçada, escondendo da chuva, o irmão – um tipo punk tradicional, ou seja, corte de cabelos estilo porco espinho, tatuagens e piercings por todo lado, uma mulher que parecia ser a mulher ou namorada dele e um cachorro – um labrador preto muito bonito. Em volta, outras pessoas, conversando sobre tudo e nada. Apresentou-me o irmão, que fez uma deferência e voltou a fazer o que fazia antes. Eu, voltei a escutar o mineiro, que agora já estava explicando o funcionamento das placas tectônicas associada com a migração das andorinhas no verão. Despedi-me e fui jantar, ainda sem entender o que tinha acontecido, como anda o mundo e o que será o futuro da geração à rasca.

quarta-feira, 9 de março de 2011





Achei muito curiosas essas três placas e fiquei, com minha astúcia, tentando decifrar os significados e sua lógica. A primeira, à direita é fácil: permitido bicicleta. O que está proibido? Suponho que todos os demais.
A outra era "é permitido o nada absoluto, o branco, o void, com exceção dos veiculos oficiais.
Detalhe: esta placa está do lado da placa que permite bicicleta. Assim, atualizei a interpretação: é permitido apenas o nada absoluto, o void, o nill, exceto aqueles que são permitidos". Aí, tem a placa da bicicleta.
Saí satisfeito, não podiam carros, bicicletas nada, exceto veículos oficiais, mas podiam bicicletas. Ou seja, escolha se quer usar a bicicleta ou não.
Mas aí a confusão aumentou quando vi a placa à direita, abaixo, que dizia que, pela minha interpretação, não podia sequer o nada absoluto, o void. Então lembrei-me das aulas de lógica: se o nada absoluto é proibido, pode-se tudo, correto? Mas creio que eles quiseram ser mais enfáticos mesmo, então pintaram a placa de preto e fizeram o risco, como que para dizer: aqui não pode nada, nunca, de nenhuma espécie e natureza. Deve ser isso, em termos de lógica booleana: Você pode apenas nada (primeira placa à esquerda); Você pode nada ou bicicleta (duas placas no mesmo local é um ou); A última é de alta complexidada, que é uma combinação de diversas funções, didaticamente. É uma placa "você pode nada" cortada, ou seja, vira um NÃO (você pode nada), que é igual ao você pode tudo. Para resolver este problema, pintam a placa de negro, significando uma nova negação - NÃO (NÃO (você pode nada)) que logicamente é igualzinho ao "você pode nada". Em termos matemáticos, seja x = algo que se pode, e f(x) = você pode x. No primeiro caso, temos x = nada e f(x) igual a você pode nada; e x = bicicleta, onde f(x) = você pode bicicleta. A terceira placa necessita de uma função g(x) = negação de x. Assim: g(f(x)) = negação de você não pode nada, que significa que você pode tudo (placa riscada). Mas eles não queriam dizer você pode tudo, mas você pode nada de maneira mais enfática. Então, pintaram a placa de preto, para a função ficar assim: g(g(f(x)) = negação (negação (você pode nada)) => negação (você pode tudo) => você pode nada. CQD.

E os brasileiros ainda ficam dizendo que os portugueses são burros.

terça-feira, 8 de março de 2011

A novela valenciana continua

A novela valenciana não tem fim (não vou me arriscar a dizer que terminou agora que já estou no aeroporto, no portão de embarque esperando o avião).

O capítulo de agora é a volta, após dois dias muito agradáveis. Vôo às sete da madrugada, primeira tarefa é acordar. Cumprida até que com facilidade, pois estava sonhando algo não muito bom. Valência tem metrô até o aeroporto, com horários bem definidos. Cheguei na estação, ninguém, nenhuma alma viva e uma máquina. Supostamente, esta máquina é uma das coisas que garante ao espanhol seus horários de trabalho que começam às dez da manhã.
Vamos lá, interagir com a máquina. Até que não costumo me dar mal com elas. Li as instruções em espanhol e inglês, para me garantir. Bilhete só de ida, já tinha o cartão, era só recarregar, mas isso não importava tanto, o que não queria era perder o próximo trem.
Escolhi o bilhete só de ida, insira o dinheiro. Abri a carteira, saquei uma nota de 20,00, coloquei no local indicado, a máquina engoliu e devolveu, intacta: solo notas de 2, 5, 10 e monedas. Mesmo que na máquina esteja escrito que aceita notas de 20. Caralho, mas que porra, exclamo educamente.

Abro a carteira, procuro moedas, notas menores, nada. Mudo de máquina, repito o processo. Nada. Abro a carteira, não é possível, devo ter algo. Acho uma nota de cinco. Fantástico, cabra de sorte, coloco na máquina, ela responde, dá-me o bilhete e ainda estou 5 minutos adiantado. Passo o bilhete, a porta se abre. Sucesso absoluto, sinto-me um vencedor, as máquinas não vão me dominar.

Entro, vou a outra máquina comprar água. Uma máquina não padrão, sem aquele furo normal de colocar moedas. Estudo a máquina, ela me estuda. Mas como tiro uma água desta fiadaputa? Tento de um jeito, coloco uma moeda de 2 euros em um lugar que parece feito para moedas, mas não muito (fechado, será que a máquina só começa a trabalhar às dez também?). Coloco a moeda, levanto a alavanca - vai, máquina, engole a moeda - procuro a etiqueta "moedas aqui", nada. Tento tirar a moeda, não consigo. Máquina fiadumaroncaefuça, ainda vai me roubar? Dou-lhe uma porrada na alavanca. Escuto o barulhinho de máquina que come moedas e no visor aparece: 2 euros. Desconfiado, aperto o botão da água. A máquina, tranqüilamente, entrega-me uma água e o troco. Sucesso absoluto, é o triunfo da humanidade em relação às máquinas, tudo posso naquilo que me fortalece.
Já sabedor que as portas não são automáticas, abro a porta do trem, sento e vou escutando Beethoven que toca no ambiente.

Chego ao aeroporto, dirijo-me à saída. Por aqui, tens que passar o cartão na entrada e na saída. Passo o cartão, nada. Deve ser o outro cartão, nada. Mudo de catraca, nada. Enfio no outro buraco, nada. Puta que pariu, não é possível, vou pular esta porra, tenho um avião. Olho para os lados, nenhuma alma viva, somente as câmeras do grande irmão, dizendo-me "brasileiro pilantra, estamos te vigiando". Tenho certeza que não tem um puto do lado de lá olhando as câmeras, afinal, começam às dez. Tenho tempo ainda, vamos tentar a saída institucional.
Vejo a placa dizendo que devo procurar o interfone, caso tenha algum problema. "Chame o interfone e espere ser atendido". Tá, aperto o botão e fico lá esperando, esperando, nada. 5 minutos, dilema do ponto de ônibus - quanto mais espero, maior a chance do ônibus que faz o caminho mais curto passar, ou seja, quanto mais espero, maior a chance do cara atender quando eu sair para buscar outra solução. Não me atendeu, fui falar com o maquinista. "Tu tienes que hablar en el interfón.". "Pero no me atienden". Faz uma cara de "sou o único desinfeliz que trabalha neste horário de cabrón". Voltei ao interfón, nada.

Quando chegar o outro trem, peço ajuda. Chega o próximo trem, converso com a primeira pessoa que desce. Ela me disse que aquele bilhete era para a linha A, aquela era a B. Fala com alguém, responde ela e olha ao lado, observando que não há ninguém.

A mesma cara de "não posso fazer nada, ninguém está aqui às 5 da manhã". Faço cara de coitado, e digo "tengo un vuelo". "Venga, pase junto". Passo, a catraca se fecha bem na hora que vou passar, tenho que forçá-la um pouco. Olho para trás, um guarda, observando tudo. De onde apareceu aquele filho de uma rapariga, que procuro há 15 minutos? Ferrou, vou preso por não pagar. "Perdón, pero no consigo salir, nadie me atiende en el interfón, tengo un vuelo, no puedo perder". "Pero tienes que pagar", me responde. "Sin problemas, yo pago y ya pagué, pero no consigo salir", e mostro a ele o comprovante, pensando "mas que carajo, cabrón de mierda, donde estaba tu quando te procuré?".

Ele vai comigo até a máquina, faz os procedimentos da máquina, escolhe a opção que eu devia ter escolhido. "Ponga el dinero", diz-me com aquele bom humor de quem é a única pessoa em todo um país trabalhando às 5h da manhã. Saco aquela mesma nota de 20,00 e adivinha: não aceita. "En la otra máquina.". Nada. Ele sai de perto enquanto eu procuro o troco da água e do outro bilhete.
Encontro, dá certinho, a conta exata do que tinha que pagar. Procuro o guarda, e digo "tengo monedas!".

Vejo, então, aflorar no guarda um sentimento de solidariedade que une a humanidade contra as máquinas. "No voy recargar, váte.". "Pero tengo las monedas...". Ele me olha, como quem diz some daqui, pega seu vôo, azar da máquina que não aceita nota de 20,00, azar do metrô que me selecionou para ser a única pessoa de toda a Espanha a estar acordado trabalhando.

Entendo o que me diz, agradeço com o olhar, viro as costas. Vou até a máquina mesmo assim, escolho a opção do bilhete correta, insiro o cartão, coloco as moedas, pego o comprovante. Bilhete pago e vão todos a merda, máquina, metrô, câmeras, guardas, linha A, B. Não quero dever um centavo a esta porcaria. Mais um sentimento de superação e júbilo.

Ajudo um africano que me pediu ajuda, com as mesmas dificuldades na interação com a máquina que tive até ali, compro para ele o bilhete correto com meus conhecimentos recém-adquiridos, desejo-lhe boa sorte e vou para o check-in, pegar o teco-teco movido a um liqüidificador de duas hélices.

segunda-feira, 7 de março de 2011

É.

Dói, mas é bom.
Racionalmente não faz o menor sentido,
Mas e quem garante que as coisas que racionalmente fazem sentido fazem sentido?
Sinto, e neste momento isso basta.
Não, não basta, mas está lá.
Simples assim, não se pode negar sua existência.
As coisas que mais nos deixam angustiados são aquelas cujo único remédio é o tempo.
Em termos de angústia, são piores que as que não têm nenhum remédio, principalmente porque não temos escolha.
Mas a dor não quer saber de escolhas.
Quer saber de doer.
E dói.

domingo, 6 de março de 2011

Valencia

Primeira tentativa: sexta-feira. Mal sucedida por razoes que aqui não exporei, mas conta-los-ei em momentos descontraídos. Alguns vexames não compartilhamos na internet, apenas em conversas com amigos e falado. Digamos que fui vitima da pontualidade européia, ou seja, uma serie se fatores associados a pontualidade culminaram no não embarque.

Viagem remarcada para domingo, sábado de passeios, chego ao aeroporto com antecedência, tudo que esta a meu alcance sendo feito. Hoje, no entanto, a pontualidade européia falhou.

Estou há 20 minutos dentro do ônibus, esperando para embarcar, depois de já ter entrado e saído do ônibus algumas vezes. Ate aí, tranquilo. O mais legal e o avião que nos transportada, muito parecido com o avião que peguei no Amazonas para retornar da pescaria, com hélice (duas, ressalte-se) e com a tarefa de atravessar a Espanha, com chuva em todo continente.

O cidadão estava terminando de abastecer, um provavelmente português em cima da asa, pilotando a mangueira de reabastecimento como se fosse o rambo com uma metralhadora na selva.

Espero que não seja uma crônica de um desastre anunciado, ainda mais que a primeira classe, as três primeiras fileiras, estão vazias.

Bom, o piloto disse que já fez esta viagem varias vezes e nunca morreu. E que esse negocio de avião cair e pra quem tem medo. Boa viagem, vou comer meu sandes que preciso ter algo pra por pra fora, caso necessite. Ligou o liqüidificador (hélice). Abraco

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Bacalhau, vinho e futebol.

Cheguei em casa à noite, D. Arminda dormindo no sofá, um breu. Vou sair, comer um bacalhau e tomar um vinho, afinal este é o grande chavão de Portugal. Um frio da gota, saio com o mapa, tentando chegar ao restaurante que no guia dizia que era bom. Pelo mapa, o lugar ficava a 1,9 km, 30 minutos (o Google ou calcula o quilômetro de Minas ou o passo da D. Arminda).
Murphy, de plantão, fez o favor de desligar o mapa (internet 3G) na hora mais necessária, o que resultou em não encontrar o lugar que estava procurando. No entanto, me levou a outro, o único que parecia ter alguma coisa – Oeiras é quase uma cidade do interior, à noite. O primeiro diálogo é sempre impactante:
- Estão abertos?
- Estamos sim.
Ele respira fundo, conta até 10, mas não se segura:
- Como teria entrado se não tivesse aberto?
Abaixo a cabeça, derrotado com argumento tão certeiro. Pensei em responder que poderia ter arrebentado a porta para entrar, pulado a janela, mas achei melhor recuar.
- Interessante seu ponto. E tá servindo comida ainda?
Fiz a pergunta, já esperando uma resposta do tipo “claro, aqui é um restaurante, quando abrimos é para vender comida. Se não tivesse comida, por que estaria aberto?”. Mas não, veio um simples “Sim”.
Sentei-me, pedi um vinho da casa, para experimentar. Uma jarra de meio litro, só para mim. Não gostei do vinho, mas como fui tomando devagar, ele foi envelhecendo e começou a melhorar. O dono do restaurante sugeriu que eu pedisse o bacalhau, que era bom e saía rápido. Aceitei, enquanto assistia na TV São Paulo de Braga 0 x 0 Naval. Com o vinho na cabeça e o futebol como assunto, fiquei até o fechamento do bar, com o dono do restaurante perguntando se o Hulk era bom de bola ou uma farsa. Daí, seguimos para a eterna discussão Romario x Ronaldo, que começou com a discussão Messi x Cristiano Ronaldo . O grand finale foi a declaração de amor ao Jardel, o maior atacante que ele já viu jogar em toda a vida. Pergunta: para qual time ele torcia?

Castanhas nascem em castanheiras

Dias longos que passam rápido. Muitas sinapses, pelas novidades, ainda encaro as grosserias portuguesas como a criança que faz arte: que bonitinho espalhando todo o cocô pelo chão. Brincadeira, eles são legais, apenas brutos, que como diz o filme, também amam. Mas eu percebo a missão deles no mundo, e considero digna de nota: implantar o óbvio no mundo. E há muita utopia nisto, mesmo porque os princípios básicos de solidariedade humana são óbvios.
Vamos aos fatos que embasam a tese: caminhava eu pela praia, já encafifado há alguns dias com as castanhas que vendem em cada esquina. Há dois tipos de turistas, aquele que tudo sabe, que dá aulas sobre tudo que está vendo, mesmo que seja pela primeira vez e o turista curioso, que parece uma criança de 7 anos. Sou deste segundo tipo e os portugueses percebem isso e, desta forma, tratam-me como uma criança de 7 anos que acabou de chegar no planeta Terra, o que justifica toda didática necessária para explicar o óbvio.
- O que é isso?
- Castanhas.
(Ufa, ainda bem que são castanhas)
- Deixa eu ver?
Ela mostra o pacote de castanhas assadas, umas castanhas redondas, pareciam um pinhão gordo, em formato roliço. Deu-me uma para comer, é uma castanha meio adocicada e, segundo ela, ela é daquele jeito mesmo.
- Você conhece pinhão, que tem no Brasil? Come-se desta mesma forma, mas é mais achatada.
- Não conheço – simples, direta, sem margem para mais assunto, embora turistas de sete anos não precisam de margem.
- E como é a árvore que dá essas castanhas?
- São castanheiras.
Neste momento, olhei para ela profundamente, com a minha melhor cara de conteúdo, mão no queixo, fazendo “hmmm”, e balançando a cabeça em tom de afirmação, como que dizendo: que coisa impressionante, não?
Só então ela percebeu que eu não tinha 7 anos e começou a gargalhar. Eu fui no embalo e só parei 10 minutos depois; ela retomou a sobriedade segundos depois, voltando à característica carranca de “vendo castanhas, por favor só me interrompa se for comprar castanhas.”.
No fim, não arranquei nenhuma informação dela, tirando o fato que experimentei uma castanha. Deve ser isso: eles falam o óbvio para não contar a receita.

Achei!

Fui procurar meus óculos antes da aula hoje e cade? Procura daqui, dali e na memória, que e falha. Ultima memória dele era de antes de escurecer no sábado, no bar que tomei o chocolate quente. Já era, mas vou lá. Na pior das hipóteses, vejo o mar e tomo uma cerveja, o prejuízo já foi. Os óculos estavam lá, guardados, me esperando. Com trezentos reais a mais no bolso, uma Sagres, por favor.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Marco zero

A pedra fundamental da vida universitária que me aguarda esta lançada: lasanha congelada, este prato tipicamente português, no Brasil produzido pela Sadia, em porções de 650g, pelas avos e cunhados portugueses. Aca, são produzidos em porções de 400g, o que claramente coloca em risco a nutrição acadêmica.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Que futebol nada...

Depois de caminhar pela praia toda tarde, já estava voltando para casa, naquele ritmo de Rogério, sem pressa, testando o mapa do Iphone. Escuto apitos, pessoas gritando, parecendo um ginásio de futebol. Vou lá ver o que acontece. Que futebol, nada. Era hóquei sobre patins. Um time da casa e um time de visitantes. Estava 4x3 para os visitantes quando cheguei, o que soube porque um dos times fez um gol no último minuto da partida e o placar ficou 4x4, permitindo-me deduzir que eles perdiam até então. Começo os treinamentos de hóquei segunda-feira.

Comercial de margarina

Está um friozinho por aqui. Frio de uma blusa, mãos nos bolsos e orelhas geladas. Perfeito para um passeio na praia, de calça e tênis. Praia lotada, crianças brincando, moleques de skate, gente correndo, cachorros. Senti-me em um comercial de margarina ou aquela cena de filme em que o casal brinca na areia como a representação da felicidade na terra.
Eram 14h e já tinha sido lembrado que não tinha comido nada. Almoço, depois caminho pela praia. Tinha um restaurante na areia, O Amarelo (adivinha a cor? – não sei se os portugueses entenderiam uma piada em que o japonês é chamado de espanhol ou o negão de alemão). Sentei-me próximo a uma senhora que estava com cara de brava na mesa e pedi uma Sagres, cerveja lusitana. Como previsto pelo Arnaldo, quando disse que em Portugal eu só tomaria vinho, a frase que veio à minha cabeça foi que “até que esta cerveja é boa”. Concentrei-me na cerveja e no meu novo brinquedo, um iphone (sim, rendi-me e, agora, ele me escravizou). Pedi uma dourada grelhada ao portuga mal humorado, totalmente fora do comercial de margarina. Retornou dizendo que não tinha. Então me vê um robalo. Vai à cozinha e retorna: também não tem, tem cherne. Eu é que não sou besta de perguntar o que é cherne, pois tenho certeza de que a resposta seria que é um peixe. Traz-me um cherne, por favor.
Bom o tal do cherne, um pouco gordo demais. E boa a tal da Sagres.

Primeiras novas da terrinha

A viagem foi tranqüila. Banco apertado, na fileira do meio. Muitas crianças no avião, parecia que em Portugal estava tendo uma grande promoção de fraldas e de DVDs da galinha pintadinha. 9 horas de vôo, o que é muita coisa. Nestes momentos, sempre nos apegamos ao “podia ser pior” – e neste momento a criatividade funciona: podia ser um vôo com escala na Líbia; alguém poderia vomitar em você; as máscaras de oxigênio poderiam cair automaticamente. Um aparte: observei o quanto era difícil colocar o colete salva-vidas, em caso de queda na água. Ele está dentro de um saco plástico; tem diversas partes para serem amarradas e, no fim, ainda tem que puxar uma cordinha de para-quedas para que ele comece a flutuar. Ainda bem que em caso de queda na água, morreríamos todos na própria queda, porque tenho certeza de que mais da metade já teria afogado antes de abrir o saco plástico do colete. Preocupei-me: seria uma inovação portuguesa ou todos aviões estavam equipados com coletes salva-vidas com 7 passos para o uso?
Neste período da viagem já comecei a perceber que eu não falo português; por outro lado, descobri que falo inglês. Nem bem levantou vôo, já serviram o jantar e duas taças de vinho. Da série “podia ser pior”, ainda seria possível que alguém se embriagasse e resolvesse declarar, por 4 horas seguidas, toda sua amizade pelo companheiro da fila ao lado.
Li um livro até o final (já estava terminando), assisti um filme, comecei assistir várias outras coisas, mas bateu o sono. Isso faltavam 2 horas de vôo apenas. Não havia posição confortável mais e o relógio parou. Um capítulo a parte foi o travesseiro de pescoço, que eu trouxe para usar no vôo. Deve ter gente que goste daquilo, mas para mim, transformou-se em mais um objeto dividindo comigo o pouco espaço a mim reservado. Você coloca no pescoço e fica com o pescoço torto ou fica forçando o pescoço pra trás para conseguir afundar o material desenvolvido pela Nasa, aqui utilizado como travesseiros. Pensei em jogá-lo pela janela. Pela impossibilidade, decidi apenas que ele não retornará ao Brasil. Quem sabe ele arruma emprego em um pescoço melhor. Só era melhor não dizer isso na fronteira, pois o travesseiro não tem visto.
Chegamos. Descemos rapidamente para tentar pegar menos fila. Atendentes mal humorados – até compreensível às 6h da manhã, frio e tomba um caminhão de brasileiros na sua frente. Chega minha vez: “o que vem fazer aqui?”; “participar da edição internacional do Cadapi, no Ina”. Foi-me dito que haveria uma lista com os participantes do curso e estas seriam as palavras mágicas que abririam o portal. “Quanto tempo?”; “Quatro meses.”; “Acompanhe-me, sente-se ali que irão conversar com o senhor”; “Ok.”. Este “podia ser pior”não havia sido pensado, talvez porque ele era mais provável que os outros. Voltar para o Brasil, mais 9 horas de viagem, um prejuízo de alguns milhares de reais, organizar novas festas de retorno, trabalhar.
Já estava sentado lá um outro cidadão, goiano, que não estava muito esperançoso. Tinha conseguido uma mulher na Suíça e estava retornando à Europa. Detalhe que ele já tinha saído de lá de maneira ilegal. Depois chegou mais um rapaz, que teve a infelicidade de perguntar à pessoa que o encaminhou para lá – de longe, o mais mal encarado – se aquele processo demoraria. Recebeu como resposta: “Ah, você tá com pressa??”, tão polidamente quanto uma lixa de aço. E depois chegou uma mulher, que estava praticamente se entregando que estava ali para trabalhar mesmo, sem visto, sem nada. Peguei um livro e comecei a ler e montar na cabeça o discurso.
Fui o primeiro a ser chamado. O agente era gente boa (se não tivesse me deixado entrar, talvez minha opinião fosse outra). Expliquei a ele o que tinha ido fazer ali, onde era o curso. Disse-me que estava com sorte, mostrando-me uma caneta do Instituto Nacional de Administração, onde faria o curso. Não entendi nada, mas estar com sorte é melhor que estar com azar e torci para não ser uma expressão idiomática portuguesa que significava que você está lascado. Mostrei-lhe os documentos que tinha trazido, o Diário Oficial da União com minhas nomeações no serviço público, a autorização para estar em Portugal, o contracheque, os cartões, o dinheiro. Acompanhe-me. Carimba o passaporte deste senhor, por favor. Bem vindo.
Como muito tempo tinha passado, imaginei que já teriam levado a mala. Não, ela estava lá, na esteira, acompanhada de algumas poucas outras – provavelmente os companheiros de malha fina – intacta. Peguei a mala e dirigi-me à saída. Não vi loja nenhuma, não vi nada. Não entendi o free shop português. Mas tudo bem, queria chegar logo. Tomei um café e um pastel de nata – já tinha descoberto que o pastel de Belém só é assim conhecido em Belém. Lembrei-me imediatamente da piada das “galinhas de angola”, que em angola são conhecidas como “galinhas”. Vou ter que ir a Belém para descobrir como chamam o pastel por lá.
Já tinha tido perrengue suficiente. Peguei um táxi pré-pago para Oeiras, sabendo que pagaria mais caro. Nada como ser roubado conscientemente. O sofrimento é achar que está sendo roubado e não saber. De qualquer forma, não era tão caro assim: 38 euros, até a porta do prédio. O carro era um Mercedez, com um senhor de motorista, de terno. Passei pelo estádio do Sporting e do Benfica, mas o motorista não acompanha muito futebol, não podendo me informar sobre os jogos. Ele não sabia onde era. A única informação que tínhamos era a que eu lembrava do Google Maps. Fomos parando, perguntando, chegamos à rua. E depois descobri o prédio (nada trivial, cada prédio tem três números, lotes), com a ajuda da Divina, uma goiana que trabalhava em um dos prédios.
É um apartamento antigo, com um 4 quartos (acho), habitado apenas pela D. Arminda e hóspedes, quando ela aluga os quartos. Além de mim, outras duas pessoas ficarão hospedadas, também do curso. Tem também a Dora, que tem parentes em Lisboa e está procurando emprego, da Bahia, mas já com um sotaque de português. Um quarto simples, com cama e armário. Chuveiro igual àqueles velhos que são dentro da banheira, a gás. Ontem, gelou de uma vez no meio do banho, nada agradável.
Fiquei andando o resto do dia. Fui ao shopping conseguir internet e telefone, almoçar um bacalhau. E só.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Reza

Hoje foi a primeira reza. Foi bom, e não foi só por causa dos 2x0. Uma tradidção, desde 2010.

Já que a nossa geração vai ser mais uma a fracassar, que pelo menos se divirta. Né?
E assim, conseguiremos dizer que quem fracassou, no fundo, foi quem não se divertiu. E nós fracassamos porque a diversão não é para todos. Deadlock.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Meta-post

É mais fácil criar um blog que amarrar o cadarço. Como estou de chinelo, direcionei parte do esforço que iria para amarrar o cadarço e criei o meu; o resto eu usei para escolher o nome, relendo Tabacaria, de Álvaro de Campos.

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!

Aí, para ocultar o pessimismo e não afastar as polianas, escolhi a última frase. Sim, como sou pós-moderno, tudo que faço tem um motivo, uma razão oculta, um objetivo.

E eu realmente penso muitas coisas. A mim elas interessam. A você, não sei. O que importa é que não te obrigarei a ler e o livre arbítrio será totalmente exercido. Assim, procuro me livrar da culpa: ela é toda sua.

E vai ser aquele dilema: mais uma coisa para eu ler. E se eu não ler e for muito bom? E se eu ler e for muito ruim? O melhor é nem ficar sabendo da existência de mais um idiota no mundo escrevendo o que vem na cabeça sem eu ter perguntado nada. A ainda me jogar a culpa da escolha.

Este blog, então, não tem objetivo nenhum, apesar da minha pós-modernidade. E assim, tem o objetivo de não ter objetivo. Um livre pensar preso a mim, o que já reduz consideravelmente a liberdade.